Quando se pensa em filmes infantis com temáticas inicialmente doces, mas com profundidade, é difícil não associá-los, de cara, ao nome do famoso diretor Hayao Miyazaki, mas, apesar do peso dele, há criadores com muito talento no Japão. É o caso de Shinnosuke Yakuwa, até então responsável pelos filmes de Doraemon, que acaba de levar às telas do país, por meio da Sato Company, Totto-Chan: A Menina na Janela, uma amável animação em longa-metragem que deixará você com lágrimas nos olhos de tão bela.
Estrelado pela Totto-Chan do título, baseada em uma figura real, Tetsuko Kuroyanagi, autora de livros infantis e que vive ainda hoje, trabalhando em causas sociais pela WWF e a UNICEF, o desenho conta a história da menina nos anos em que o Japão estava na Segunda Guerra Mundial, e como a mudança do clima social e político da época afetou o crescimento dela, desde os relacionamentos com colegas de escola como a dura realidade que sua família, até então abastada, teve que lidar neste momento difícil.
Apesar de todo o sofrimento, Totto mostra-se uma menina alegre e de personalidade colorida, tanto que acaba sendo vista como difícil por sua escola, forçando-a a mudar para outra. Tal troca de ambientes levam a amável garotinha a frequentar o colégio Tomoe, onde ela encontra outras crianças tão alegres quanto ela, em um ambiente mais condizente, de estilo de ensino diferenciado. Entre seus novos amiguinhos está Yasuaki, que sofre dos efeitos da poliomielite.
Diferentemente de outras produções onde o menino poderia sofrer de preconceito e fazer disso a motivação central do filme, Totto-Chan: A Menina na Janela toma um outro rumo: floresce a amizade entre ele e Totto, que se esforça para tirá-lo de seu casulo social, levando-o a aproveitar de sua infância, como qualquer outra criança. Nesse momento, o filme passa a exibir a força da imaginação de sua estrela, explorando ainda mais a já belíssima direção de arte, utilizando lindíssimas cenas animadas em aquarela.
Mesmo trazendo essa mensagem tão importante de aceitação e a força de vontade e beleza de espírito de Totto, o cenário em torno das crianças da escola torna sua vivência cada vez mais complicada, já que naquele momento histórico o Japão tornou-se cada vez mais nacionalista, torcendo a população e tirando dela recursos que antes faziam suas vidas serem o que sempre foram.
Para a realidade não só da garotinha, mas também de todos com quem ela se relaciona, a gradual mudança é mostrada com um peso dificilmente visto de maneira tão cuidadosa como a vista em Totto-Chan: A Menina na Janela. Afinal, não se trata de uma animação de guerra, e os poucos dela que são mostrados exibem a força de vontade da população, partes da qual não concordam com os rumos de seu país no conflito, incluindo o pai de Totto, um músico que se vê pressionado a apoiar o movimento nipo-nacionalista.
Nos comovemos com as idas e vindas de um desenho em formato de filme tão belo quanto esse. A versão dublada conta com interpretações singelas e muito bem feitas, garantindo que mesmo que você assista a ela ao invés da legendada, a diversão será garantida. Dentre as produções voltadas ao público infantil assistidas recentemente, Totto-Chan: A Menina na Janela é tranquilamente uma das com maior peso em termos de mensagem e no modo como assuntos sensíveis são tratados. Para pais e crianças há algo a ser aproveitado aqui, fazendo deste novo lançamento uma excelente pedida para todas as idades, sem sombra de dúvida.
Totto-Chan: A Menina na Janela terá sua estreia nos cinemas brasileiros no dia 9 de outubro, por parte da Sato Company. O Entertainium Brasil é grato à assessoria pela acesso antecipado ao filme para produção desta crítica.
